Nossa matriz de transportes anda de marcha à ré

Posted on 24 de agosto de 2019

Avião, navio, trem, caminhão, ônibus, carro… provavelmente você já deve ter utilizado um desses meios de transporte para se locomover. Eles também integram a matriz de transportes brasileira, responsável pelo deslocamento de pessoas e, principalmente, mercadorias no nosso território. Desde a greve dos caminhoneiros em 2018, ficou claro como o escoamento da produção está refém das rodovias.

O Brasil, país de dimensões continentais, insiste no grave erro de sustentar uma matriz de transporte desajustada. Faltam ferrovias, hidrovias, aeroportos e portos para atender a uma demanda reprimida, que se encontra ancorada nas estradas que ligam a nação de norte a sul. Hoje, mais de 70% de todo o transporte brasileiro ainda acontece pela malha rodoviária.

Dentre as principais economias mundiais, somos o país com maior concentração rodoviária no transporte de cargas e passageiros. Em comparação, na Rússia, apenas 43% do escoamento de mercadorias é feito pelas rodovias. Segundo um levantamento da Confederação Nacional do Transporte (CNT), a frota de caminhões no Brasil cresceu 84% em 15 anos, passando de 1,5 milhão para 2,6 milhões.

Nossa infraestrutura logística é deficitária. Além de distribuirmos internamente as mercadorias para consumo da população, exportarmos grandes volumes de grãos e minérios para outros países, produzidos em regiões distantes do litoral. Nossa matriz deveria usar os diferentes meios de transporte disponíveis de forma integrada, mas não é o que acontece.

Uma matriz de transportes eficiente leva em consideração todas as distâncias e a geografia das regiões a serem percorridas, as características dos produtos transportados e as exigências sociais e econômicas do deslocamento. Equacionar esses fatores é essencial para minimizar os custos financeiros e os impactos ambientais da locomoção de mercadorias.

Especialistas são unânimes em dizer que o país precisa investir na integração dos modelos de transporte de cargas se deseja ampliar o padrão da sua matriz transportadora. Em um cenário de escoamento à longas distâncias, essa intermodalidade significaria uma considerável redução de custos para as indústrias nacionais e da emissão de gases poluentes na atmosfera.

A dependência rodoviária do Brasil pertence a um ciclo vicioso de interesses. Os governantes não propõem soluções para o sistema de transportes, uma vez que construir e reformar estradas ainda é um dos pilares das campanhas eleitorais interioranas. Nunca vimos um político ser eleito prometendo inaugurar uma ferrovia. Essa prática não sobe ao palanque, porque trem é considerado um “trem” do século passado.

Essa situação do transporte de cargas desencadeia uma série de problemas estruturais e burocráticos na economia nacional, que torna os nossos produtos e serviços mais caros. Esse conjunto de fatores resulta no “Custo Brasil”. Ele atrapalha a nossa competitividade no mercado internacional, aumenta o desemprego e sucateia a mão de obra qualificada, freando o desenvolvimento do país.

O agronegócio, setor importante para a retomada do crescimento do Brasil, também é afetado pela infraestrutura logística precária, apesar dos avanços tecnológicos. Além dos impostos e das altas taxas, que também estão dentro do Custo Brasil, os gastos com o escoamento da produção agrícola no Brasil fazem com que o preço dessas mercadorias seja 36% maior do que em países como os EUA e a Alemanha.

Pensando estrategicamente…  um dos fatores de crescimento econômico de uma nação está diretamente ligado às facilidades de mobilidade da população. Tanto o deslocamento de pessoas entre regiões e países quanto o escoamento de sua produção de mercadorias, sejam no contexto nacional ou internacional, é uma injeção na economia.

Nosso sistema de transportes está estrangulado. Temos hidrovias sobrecarregadas e ferrovias funcionando precariamente. O cenário atual é preocupante, mas vislumbramos um futuro promissor. Tarcísio de Freitas, ministro da Infraestrutura, já manifestou a intenção de otimizar as ações do governo em relação às ferrovias, e recebeu apoio de grupos importantes do setor ferroviário.

As indústrias passaram por diversas transformações ao longo das décadas. Agora é a vez da nossa matriz de transportes acompanhá-las.


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